SENKOTSU

Visto que há muitos irmãos de descendência okinawana entre nós, senti a necessidade de esclarecer mais este assunto: SENKOTSU.

 

Okinawa, antigamente chamada Ryukyu, foi capturada e anexada pelo Japão no Século XIX. Isto explica o porquê de Okinawa manter costumes, tradições e religião tão diferentes das demais províncias japonesas.

 

Denomina-se SENKOTSU (japonês) ou SHINKUTÍ (dialeto okinawano), o ritual de exumação na qual se lavam os ossos dos mortos; normalmente SENKOTSU é feito, no mínimo, 7 anos após o falecimento. A maioria dos japoneses das demais províncias desconhecem este ritual, portanto não mantem este costume.

 

Para não confundir:
Sepultar – colocar no sepulcro;
Enterrar – cobrir de terra;
Cremar – queimar;
Exumar – (pronúncia: ezumar) tirar o cadáver do sepulcro.

 

O princípio de SENKOTSU
Basicamente, a ideia é de desocupar espaço dentro dos túmulos, visto que nos antigos funerais okinawanos adotavam-se o sepultamento, e não a cremação. Atualmente, seguindo as leis do país, adotou-se o sistema de cremação também em Okinawa, por isso, SENKOTSU está se tornando cada vez mais raro.

 

Ressepultamento
Pela tradição, após um ritual celebrado por YUTÁ* lavavam-se os ossos na água do mar para higienizar e deixarem brancos, para então, depois de secos ao sol, sepultarem novamente após devidamente acomodados em urna ou em vaso de cerâmica ou madeira. Isso porque os restos mortais, ao serem exumados, vem com restos de urna, roupas e objetos pessoais que foram colocados e também com aparência “suja”. Por isso, limpá-los era demonstração de respeito.
Nos locais onde distam muito do mar, lavavam-se os ossos em água salobra em bacia, e finalizavam com pano embebido em álcool para a umidade evaporar mais rapidamente e poderem ressepultar.
A tradição diz que este ritual deve ser feita sob supervisão e cerimônia dirigido por uma YUTÁ, que é um tipo de “mãe de santo”.

 

*YUTÁ – É uma figura feminina bastante popular nos rituais religiosos de Okinawa.

 

A palavra YUTÁ é abreviação de YUNTAKU que significa “especuladora de vida alheira”, ou simplesmente, “fofoqueira”. Enquanto os praticantes de yutaísmo não despertam ao que está tão evidente, as YUTÁs continuam presentes em negócios do outro mundo dando seus palpites espirituais, com uma certa ajuda que vem de “outro mundo”.

 

Conclusão:
O sentido deste costume é apenas cultural. No Brasil, por exemplo, o serviço de exumação é, digamos, terceirizado – fica por conta dos funcionários do cemitério que poderão manusear os restos mortais sem cuidados especiais.
Já em Okinawa, a família e amigos mais próximos do falecido se encarregam de exumar com devido respeito e capricho – daí o costume de lavar e higienizar os ossos. A cena de um SENKOTSU assemelha-se a um pequeno grupo de cuidadosos arqueólogos amadores trabalhando para preservar a história. Faz sentido – mesmo que a nós pareça um tanto estranho. O problema é que em qualquer ritual funerário tradicional, é sempre solicitada a presença de YUTÁ que, por sua vez, não perde a chance de propagar as suas crenças místicas e superstições.

 

“Onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão os abutres.” (Mt 24:28)