Onde foi que errei?

Ao lermos o Livro dos Reis e das Crônicas que relatam os acontecimentos durante o reinado dos reis de Judá e de Israel, notamos que muitos reis de judáreis foram abençoados porque fizeram o que era reto perante o SENHOR; porém outros fizeram exatamente o contrário levando à ruína toda a nação.

 

Entre um e outro monarca, especialmente de Judá, notamos que Ezequias (2Rs 18-20; 2Cr 29-32; Is 36-39) teve um brilhante reinado e foi tido como um dos melhores reis da história de Judá, ao passo que, o seu filho sucessor Manassés (2Rs 21; 2Cr 33), foi um dos reis mais abomináveis de Judá. Depois que a Mão do SENHOR pesou sobre Manassés, este se arrependeu (2Cr 33 10-16), mas depois da sua morte, o seu filho Amom voltou a cometer abominações, até que foi assassinado pelos seus próprios servos. Então, Josias, filho de Amom, subiu ao trono com apenas 8 anos e, assim como o seu bisavô Ezequias, cumpriu um brilhante reinado.

 

Como pode de um rei temente a Deus como Ezequias ser sucedido por um filho e neto tão perversos e depois por um bisneto extremamente temente a Deus? Bem, sabemos muito bem o que aconteceu espiritualmente com essa família, porém eu quis saber o ponto de vista psicológico, enviando esta pergunta a nossa irmã Cláudia Zaha, psicóloga. No mesmo dia, a irmã me enviou uma longa análise ressaltando a importância do papel dos pais de educar os seus filhos num ambiente apropriado:

 

Análise-resposta

Considero uma pergunta muito boa!

 

Apesar da psicologia não ser uma ciência exata, existem estudos e pesquisas que se encaixam em vários contextos, até mesmo para a época do rei Ezequias.

 

A psicologia considera que existem influências genéticas e ambientais que favorecem ou desfavorecem o comportamento do ser humano. Na verdade, tudo começa em casa. Tudo começa desde quando a mãe está grávida, desde suas emoções, stress, cuidados com o bebê e continua após o seu nascimento.

 

O mais incrível é que existem doenças – futuras -, como rinite, sinusite, esquizofrenia, psicopatia, etc., que podem ter seus desenvolvimentos ainda quando o ser humano é bebê! É muito necessário que as mães – ou os cuidadores – tenham um grande cuidado ao recém-nascido, pois é dali que começa a nascer suas seguranças, suas confianças, seus primeiros traumas, entre outras.

 

Até os 6 meses de idade, o bebê não tem noção de que é um ser humano, ele apenas “acha” que é uma extensão da mãe. Ou seja, é como se ele e a mãe fossem um só. Então nessa fase, é muito importante a dedicação materna e até mesmo a expressão facial da mãe. Pois o bebê vai ver ele mesmo através da expressão facial de sua mãe. Se a mãe se encontra feliz, é isso que ela passará para o seu bebê. Ela é o espelho do bebê. E o desenvolvimento desse bebê, de sua personalidade, dura até os 6 anos de idade. Praticamente, até os 6 anos de idade, a criança já terá desenvolvido toda a sua personalidade. Esta é uma fase muito conhecida na psicologia que se chama “Síndrome de Édipo”. Ou seja, em uma família onde existe a figura paterna e a figura materna, acontece um “rompimento” na mente da criança. É que inconscientemente (a criança nem se dá conta), a criança que era muito grudada à mãe e aos seus cuidados, começa a se desprender emocionalmente. Ou seja, para isso acontecer, a figura do pai entra em jogo. Geralmente, a menina tem o pai como “herói” (aquele que vai servir de referência para seu futuro marido), e ela precisa entender que o pai pertence à mãe e ter uma certa “frustração”. E os meninos tem a mãe como a amada deles, uma referência para suas futuras esposas, e é nessa fase que eles se dão conta (inconscientemente) que a mãe é do pai. Ou seja, eles passam por essa “frustração” necessária onde aprendem que a mãe/pai não é algo exclusivo deles – na psicologia diz, que o pai é (para a menina) um símbolo de paixão, amor (mas não no sentido de paixão de namoro, e sim no sentido de se iludir que o pai é apenas dela). E existe uma certa rivalidade: os meninos rivalizam a mãe com o pai, e as meninas rivalizam o pai com a mãe. Mas tudo isso, eles nem sabem que acontece, é tudo parte do nosso inconsciente. Ou seja, 80% do que somos é inconsciente. Agimos apenas 20% como pessoas conscientes.

 

Estou explicando tudo isso, porque achei necessário para entendermos como foi o desenvolvimento de Manassés.

 

Manassés

Na psicologia, é muito importante ter a figura feminina e masculina para o desenvolvimento dos filhos. E será que até os 6 anos, Manassés teve um pai e mãe presente?

 

Era necessário pais que fornecessem limites e repassassem valores (aos poucos – de acordo com a idade), para que ele fosse internalizando todo o aprendizado. E mesmo se Manassés tivesse observado seu pai e seu modo de reinar nessa idade, ele ainda não tinha a total capacidade de um adulto, de assimilar tudo o que seu pai fazia.

 

Até os 9 ou 10 anos, a criança não absorve como um adulto seus pensamentos, apesar dela entender o que se passa ao redor. O desenvolvimento cognitivo só se torna mais desenvolvido lá pelos 11 anos. Aí os pré-adolescentes se tornam mais capazes e flexíveis de manipular as informações.  Ou seja, a Bíblia nos descreve que Manassés começou a reinar aos 12 anos, apenas.

 

Isso é muito importante saber. Pois é através da idade que a psicologia baseia cada fase do ser humano e seus comportamentos. Vemos que aos 12 anos, seu pai, Ezequias, faleceu, e apenas sua mãe, sua cuidadora, era quem fornecia os cuidados, conselhos, direcionamentos, etc.

 

Na psicologia, é muito importante saber qual foi a forma dos pais cuidarem das crianças, desde o seu nascimento. Quais os valores que os pais enraizaram nesse filho?  Como era a mãe de Manassés? Era muito permissiva? (a mãe deixa o filho adorar ídolos, fazer tudo sem limite, e seguir suas vontades somente?)

 

É necessário, dentro da psicologia, que se faça todas essas perguntas, para saber qual ambiente essa criança cresceu, qual educação ela recebeu, se foi satisfatório ou não.

 

Aos 12 anos, o pré-adolescente é capaz de pensar de uma forma mais complexa que a criança, a criança pensa no “aqui e agora”, mas o pré-adolescente são capazes de imaginar possibilidades e de gerar e de testar hipóteses. É por isso que é mais ou menos (ou antes) nessa idade que é introduzido na matemática os números com símbolos (utilizar a letra X para representar um símbolo) e assim elas podem aprender álgebra e cálculo e utilizar suas hipóteses. É nessa fase – 11 ou 12 anos – que a capacidade de pensamento abstrato aumenta. E a maneira da criança pensar de forma abstrata, tem implicações emocionais. Antes era 8 ou 80. Ex: a criança amava os pais e detestava um colega. Agora ela pode amar a liberdade, mas também odiar a exploração…

 

Essa é a fase onde ela começa a aprender a expressar melhor suas ideias e suas esperanças, coisa que antes não. Nos adolescentes, as regiões do lobo frontal não estão plenamente desenvolvidas, ou seja, em vez de eles serem mais “razão”, eles agem mais “emocionalmente” e “instintivamente”.

 

Os adultos pensam mais racionalmente, porque o lobo frontal é desenvolvido. Por isso, os adolescentes são mais impulsivos. Os pré-adolescentes e adolescentes tem atitudes e comportamentos imaturos comparados aos adultos.

 

Na idade de Manassés, aos 12 anos, ele provavelmente estava numa fase de: modalidade convencional. Quero dizer, nós todos temos um julgamento moral sobre as coisas, e esse julgamento moral, muda de acordo com a idade e as nossas fases.

 

Na idade de Manassés, ele provavelmente preocupava-se em ser “bom” e agradar os outros para manter a ordem social. Ou seja, é uma fase que o adolescente não faz o seu próprio julgamento com base nos princípios de correção, justiça e imparcialidade.  Por exemplo, qual é o julgamento moral de uma criança de 4 a 10 anos? Elas só obedecem às regras para evitar punição ou para ganhar uma recompensa ou por interesse próprio. Elas agem sob controle dos cuidadores (externos).

 

Os pais – ou cuidadores – são as primeiras figuras autoritárias dos filhos. Então, se os filhos respeitam os pais, eles tendem a respeitar seus chefes, seus professores e tudo que envolva autoridade.

 

Como o rei Ezequias viveu pouco ao lado de Manassés, ele pode acompanhar apenas uma parte de seu desenvolvimento, e não sabemos o tipo de pai que foi Ezequias. Se foi um pai bastante presente nos ensinamentos, valores e modelo de exemplo, antes de falecer. A mãe dá aos filhos, características de autoestima, autovalorização e o pai é a figura que dá o controle, a segurança e o limite aos filhos.

 

Existem casos de adolescentes que aprontam muito, ou seja, sem saber, elas estão pedindo “limite”. Ou seja, o que um pai faz e age. Elas acabam pedindo esses limites nos lugares errados e tendo que fazer as autoridades (policiais, diretores de escola, etc.) dar limites a eles. Então, o que eu posso refletir sobre Manassés e também em outros casos parecidos, é primeiramente sobre os pais. Como essas crianças foram cuidadas desde cedo e quais tipos de figuras paternas elas tiveram.

 

Também, vemos que as decisões de Manassés se baseava em sua personalidade, caráter e temperamento. Aí voltamos lá no início de seu desenvolvimento, como foi estruturado sua personalidade, e quais suas crenças desde pequeno. Bom, este é um assunto interessante. 

 

Um caso atual que conheço é o da cantora Katy Perry (cantora muito famosa, mas que canta perversidades), no qual, seus pais são pastores. O que pode ter levado ela a seguir um rumo tão mundano?

 

Eu li a história de Josias, e é incrível como ele agiu diferente de Manassés. Manassés, apesar de ter tido um pai exemplar, provavelmente, cresceu no comodismo e não tomou seu pai como exemplo.  Também acrescento mais um ponto de vista: a fé pessoal de cada rei os guiou. Fora a criação, ambiente, cuidadores, o que cada um realmente temia em seus corações?

 

Ou seja, Manassés realmente tinha o coração voltado para o Senhor?

 

Josias

Josias teve um grande exemplo do pai: de como não ser. Ou seja, no caso dele, já cedo, ele teve um exemplo ruim de como foi seu pai, e com essa idade, já devia ter noção dos estragos causados pelo pai.

 

Acredito que Josias possa ter sido estruturado por pessoas prudentes e tementes ao SENHOR. Porque aos 8 anos, ele pouco sabia o que fazer, sendo que, segundo a psicologia, não é possível que uma criança tome facilmente as mesmas decisões de um adulto. Porque envolve muitas diferenças: consciência, estrutura cerebral, experiências passadas, etc.  Incrivelmente, um pai perverso, passou uma lição mais impactante para o filho e para os outros: de não ser como ele.

 

Porém, incrivelmente, o pai justo e prudente, trouxe certo comodismo para as pessoas ao redor, como se não “provocasse” nas pessoas, certos desejos e ânsia em atingir o mesmo patamar de fé e comportamento parecido.

 

Realmente, isso pode acontecer. Às vezes, comportamentos ruins e histórias ruins, trazem mais mudanças de como devemos agir – no caso, para melhor – do que pessoas que sempre agiram de forma correta.

 

Bom, não posso generalizar. Porque a psicologia trata cada caso como um caso, e em cada caso é preciso ser analisado cuidadosamente a história de vida da criança, o ambiente em que ela foi criado, quais pessoas a disciplinaram, se foi tratada com amor ou com ódio, se foi tratada com regras ou sem regras, se foi supervalorizado certos comportamentos ou negligenciados, se teve muitos traumas ou não, entre outras. Mas analisando “superficialmente” o caso deles, dá para identificar esses comportamentos de vida.

 

Existem histórias assim: filhos de pais alcoólatras, que viu o pai ser assassinado, viu o pai arrumando encrencas, e conta isso, como um exemplo de como não ser. Então, esses filhos empenham-se em ser ao contrário, e alguns passam até odiar extremamente o álcool, por causa das más lembranças que o pai deixou. É que tem pessoas que nos deixam exemplos de como ser e pessoas que nos deixam exemplo de como jamais ser, não é?

 

Pela minha compreensão, percebo que o ser humano quando bem estruturado, bem amado, a tendência é se tornar um adulto saudável, livre de traumas passados e fortalecido. Existem exceções sim. Isso também depende da própria pessoa. 

 

Então, os pais são a base de criação dos filhos sim, eles ensinam valores desde cedo, ensinam tudo de melhor, porém, existem momentos que a personalidade, o caráter do filho, aparece, e ele pesa o que é melhor para a própria vida. Mas os valores que os pais deram, sempre terão um peso grande para o filho.