O povo heteu na Bíblia

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Ruínas de Hattusha, antiga capital heteia

O império heteu foi um poderoso império que começou a dominar a área central da atual Turquia, parte do Líbano, Síria e Israel há quase 4 mil anos. O povo heteu é da família dos cananeus e a sua origem está registrada em Gn 10. Os antigos israelitas simplesmente os chamavam de filhos de Hete. Algumas Bíblias traduziram heteus, enquanto que outras, hititas.

“Canaã gerou a Sidom, seu primogênito, e a Hete” (Gn 10:15)

 

dscn3725A capital do império heteu era Hattusha, nas redondezas da atual cidade turca de Bogazköy. Hattusha, que provavelmente já existia antes dos heteus, foi conquistada em torno de 1900 a.C. e se tornou a capital do império heteu por volta de 1500 a.C. A cidade era notável por suas fortes muralhas e localizada em um terreno bastante irregular.

 

As escavações comandadas pelo arqueólogo alemão Hugo Winckler em 1906 descobriram além da própria cidade de Hattusha, inúmeras tábuas de argila escritas na até então desconhecida língua heteia. Durante a sua carreira, o arqueólogo estudou e escreveu vários artigos sobre o Antigo Testamento, a Babilônia, a Assíria, o Código de Hamurabi, e a escrita cuneiforme.

 

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Escrita heteia: Tratado de Kadesh exposto no Museu Arqueológico de Istambul

A língua heteia é classificada como a mais antiga língua indo-européia, e a sua escrita, tal como os contemporâneos egípcios, detinha uma escrita hieroglífica. Sua principal arma eram os temidos carros de guerra com capacidade para três pessoas (um condutor e dois guerreiros, geralmente um deles utilizando um arco), uma inovação frente aos carros de guerra de duas pessoas utilizados tradicionalmente por seus vizinhos. Coincidência ou não, alguns pesquisadores apontam grande semelhança da língua heteia com o tupi-guarani, sugerindo a presença daqueles nas futuras terras brasileiras, o que é contestado por outros.

 

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Escrita cuneiforme

Ainda no Livro de Gênesis, está escrito que foi de um heteu chamado Efrom que Abraão adquiriu a caverna de Macpela para sepultar a sua esposa Sara (Gn 23). Mas, mesmo antes de Abraão mudar-se para Canaã, é sabido que os heteus já estavam bem radicados ali. Sabe-se que eles habitavam em Hebrom e nas regiões montanhosas próximas (Gn. 15:18-20). Séculos depois, já nos tempos da conquista de Canaã pelos israelitas, Josué (Js 11:3) enfrentou os heteus que ainda permaneciam naquelas regiões montanhosas.

“O povo, porém que habita nessa terra é poderoso, e as cidades, mui grandes e fortificadas; também vimos ali os filhos de Anaque. Os amalequitas habitam na terra do Neguebe; os heteus, os jebuseus e os amorreus habitam na montanha […]” (Relatório dos espias – Nm 13:29)

 

Várias passagens bíblicas mencionam os heteus:

  • Esaú tomou por esposa a Judite e a Basemate, ambas heteias, o que não agradou a seus pais (Gn 26:34-35; Gn 27:46). Talvez, Esaú tivesse casado com heteias para garantir a posse da terra, visto que os heteus dominavam também a região de Berseba;

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    Relevo de soldados heteus

  • Nos tempos dos juízes de Israel, os heteus, cananeus, amorreus, ferezeus, heveus e jebuseus começaram a se misturar com os israelitas mudando a cultura e, principalmente, a fé do povo de Deus, o que veio a custar caro posteriormente a ambos os lados (Jz 3:5-6);
  • Dentre os cananeus, aparentemente apenas os heteus mantiveram destaque e força como nação por um período bastante longo após a conquista israelita. (1Rs 10:29);
  • Davi cometeu adultério com a esposa de Urias, o heteu (2Sm 11:3);
  • Salomão manteve relações comerciais com os heteus (1Rs 10:29), casou-se com muitas mulheres, entre elas, heteias, o que trouxe ruína à sua vida (1Rs 11:1-8);
  • São mencionados nas Escrituras como tendo reis e poderio militar ainda no reinado do Rei Jeorão, de Israel (917-905 a.C.) (2Rs 7:6);
  • Em Ez 16:3, fala-se das origens pagãs da cidade de Jerusalém, que antes de ser conquistada por Davi, havia sido habitada pelos jebuseus (2Sm 5:6-9) descendentes de amorreus e heteus.

 

Como podemos observar acima, havia bons heteus como Efrom e Urias, todavia a regra geral imposta pelo SENHOR era:

“Quando o SENHOR, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; e o SENHOR, teu Deus, as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas; nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações, não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos; pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós outros e depressa vos destruiria.” (Dt 7:1-3)

 

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Encontra-se no pátio externo do Museu de Hattusha, um alto-relevo representando a falsa deusa Ishtar, bastante comum entre os heteus. O achado é datado de Séculos 14 a 13 a.C., que corresponde a época da chegada dos israelitas à terra de Canaã até a época dos juízes de Israel.  Isto indica a preocupação de Moisés em advertir severamente os israelitas antes da travessia do Jordão:

“Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o SENHOR, teu Deus, se te ensinassem, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir.” (Dt 6:1);

 

“Não seguirás outros deuses, nenhum dos deuses dos povos que houver à roda de ti.” (Dt 6:14);

 

“Não adorarás os seus deuses, nem lhes darás culto, nem farás conforme as suas obras; antes, os destruirás totalmente e despedaçarás de todo as suas colunas.” (Êx 23:24).

 

No Séc XII a.C. os heteus ainda eram suficientemente fortes para conterem os avanços dos reis assírios, porém, logo começou cair em declínio até o seu completo desaparecimento.