Concílio de Niceia

A pequena e tranquila cidade de Iznik, na Turquia, é hoje um resort banhado pelas águas do Lago Iznik, muito procurado pelos turistas europeus. Iznik dista apenas 140km da grande e movimentada Istambul – a antiga capital bizantina, Constantinopla. Na antiguidade, Iznik foi chamada Niceia, que foi capital do impérioDSCN3968 homônimo. A cidade antiga é cercada em todos os lados por cerca de 5 km de muros de aproximadamente 10 m de altura, com mais de 100 torres que foram levantadas ainda na época da sua fundaçãoTalvez, os acontecimentos mais lembrados hoje, quando se fala de Niceia, sejam o Primeiro e o Segundo Concílio de Niceia.

 

Uma igreja cristã foi construída em Niceia no Século IV d.C., porém, mais tarde, com a ascensão do domínio muçulmano na região, a igreja foi transformada em mesquita. Hoje, o local é também um museu aberto a visitantes não muçulmanos.

DSCN4022

Interior da mesquita de Niceia

 

A mesquita de Niceia é uma forte candidata a ser identificada como o local onde houve o Primeiro e o Segundo Concílio de Niceia. No entanto, em 2014 foi descoberta ruína de uma basílica à uma profundidade de 2 metros, a 20 metros das margens do Lago Iznik. Esta recém descoberta basílica é cerca de um século mais nova do que a mesquita – e isto significa que ela não existia na época do Primeiro Concílio de Niceia (20/5/325 – 19/6/325), mas talvez fora usada no Segundo Concílio que aconteceu de 24/9/787 a 23/10/787.

 

A meu pedido, uma irmã de fé, estudante de história, redigiu o texto abaixo:

 

 

Autora: Madeleine Colussi

IMPERADOR CONSTANTINO E O CONCÍLIO DE NICEIA

Introdução

iznik basilica

Basílica submersa de Niceia, descoberta em 2014

Na educação primitiva, no clã, na tribo e na família, a religião era transmitida naturalmente, como parte da inserção do indivíduo no seu grupo social. Assim, se dava entre os povos orientais, chineses e indianos e entre os ocidentais, egípcios, gregos e romanos.

 

Deve-se atentar e observar que o berço do cristianismo não está em Roma, ou na pessoa de Constantino; isto é, o imperador Constantino não é o pai do cristianismo. Quando ele nasceu, o cristianismo contava com mais de três séculos de existência. Constantino conheceu Lactâncio na Corte de Diocleciano, na qual o filósofo cristão conspirava abertamente contra o sistema religioso que sustentava a tetrarquia. Constantino foi o fundador da Igreja Católica, ou seja, uma igreja formada pelo homem como sendo o centro das atenções. Deus não era exaltado, mas sim o clero e as liturgias – dogmas feitos por homens, onde começou a apostasia – o homem se afastara de Deus dando ouvidos aos homens que buscavam apenas poder.

 

Nesta igreja, tratava-se de uma doutrinação completa da consciência individual, que deveria enxergar o mundo e viver nele segundo os seus dogmas e mandamentos (atitude copiada pela cultura islâmica). Além de não permitir a liberdade de o indivíduo assumir outras denominações religiosas, banidas da cultura monopolizada pelo catolicismo, ela não permitia outras formas de cristianismo. No livro Cristianismo e Paganismo, Hillgarth (2004) mostra que entre os séculos IV e VIII, o esforço tantas vezes violentos empreendido pelos católicos não só para apagar o paganismo da história, mas para catequizar as demais formas de cristianismo. A eliminação das diferenças foi a obra que começou com Constantino, no Concílio de Niceia, no século IV, para estender-se a toda Idade Média.

 

Abordaremos neste artigo um breve resumo do Concílio de Niceia em 325 d.C., século IV, com as principais normas instituídas pelo Imperador Constantino à igreja fundada e denominada Igreja Católica.

 

Constantino e o Cristianismo

Constantino I ou Constantino, o Grande (272-337), entrou para a história romana como o primeiro imperador romano a se converter ao “cristianismo”. Contudo fica em aberto a seguinte questão: ele teria feito isso por pura devoção ou fora uma jogada política?

 

DSCN4162

Coluna de Constantino – Istambul

Constantino nasceu na região de Ilíria, filho do primeiro casamento de Constâncio. As referências de sua mãe, Helena, estão relacionadas ao repúdio do marido, já depois de 312 d.C. à divulgação do Cristianismo, com o filho já à frente do Império. Mesmo com o segundo casamento de Constâncio, Constantino tem presença marcante no cenário político, como bem atesta o seu biógrafo Eusébio de Cesareia.

 

Deparamo-nos na historiografia, com descrições de Constantino como sendo “cínico e supersticioso”, numa extremidade, ou como “cristão sincero”, em outra extremidade (VEYNE, Paul, 2009, p. 10) (2) – percebemos que tais caracterizações se relacionavam com a polêmica bidimensional entre cristianismo e paganismo.

 

Constantino era um homem devoto ao culto dos deuses romanos, ele próprio se comparava como sendo descendente do herói Héracles (Hércules), posteriormente em suas campanhas militares no Oriente tivera contato com o culto do Deus Sol Invictus, ligado ao Mitraísmo. Contudo sua aparente devoção ao Deus dos cristãos só viria no ano de 312, quando este estava prestes a travar uma dura batalha contra o imperador Maxêncio. Nesta época o império romano estava dividido em porção Ocidental e Oriental, assim havia um governo com dois imperadores e dois césares (seus sucessores), no final eram quatro líderes que comandavam o império, algo que não se mostrou tão viável assim. O projeto de uma tetrarquia havia sido concebido poucos anos antes, pelo imperador Diocleciano o qual havia governado de 284 a 305. Diocleciano fora o responsável por reestruturar o império o qual se encontrava em crise e uma de suas medidas fora sua redivisão territorial em duas metades, a criação de novas províncias, dioceses (aqui diocese refere-se a uma organização administrava a qual fora adotada pela Igreja Católica posteriormente), etc.

 

Assim, após ter abicado do trono em 305 juntamente com Maximiano, imperador do Ocidente, Diocleciano deixou como sucessor Constâncio Cloro (250-306), pai de Constantino. Constâncio tinha como césar, Galério e no Oriente o sucessor de Maximiano fora Maxêncio e o seu césar Lícinio. Constâncio morrera em campanha militar na Bretanha, então seu filho, Constantino fora eleito pelo seu próprio exército sucessor direto de seu pai, indo de encontro ao direito de sucessão deixado para Galério, fato este que o imperador do Oriente Maxêncio não reconheceu Constantino como novo augusto (nome dado ao imperador nessa época) do Ocidente, assim uma guerra entre os quatro monarcas se iniciou.

 

Oficialmente Galério era o imperador do Ocidente, mas tivera que disputar seu poder com Constantino. Em 311, Galério morreu e Constantino assumiu o cargo de imperador, contudo Maxêncio ainda não o aceitava como novo monarca. No ano de 312 na noite anterior a Batalha da Ponte Milvio contra as forças de Maxêncio, Constantino tivera um suposto sonho no qual aparecia uma cruz, e nesta estava grafado a seguinte frase: In hoc signo vinces (sob este signo vencerás), com isso antes da batalha começar Constantino ordenou que os seus soldados pintassem uma cruz, o lábaro em seus escudos, e de certa forma isso acabou lhe trazendo sorte, e eles venceram a batalha. Constantino andando pelo acampamento teria visto uma cruz no céu. Alguns historiadores sugerem que ele teria visto um meteoro ou estrela cadente e considerado como um presságio divino.

 

Depois desta vitória, Constantino mostrou interesse ao cristianismo. Vendo deste ponto, pode se dizer que fora um ato de devoção, o qual viria a se reafirmar e a se fortificar quando em 313, Constantino juntamente com Lícinio o novo imperador do Oriente, assinaram o Édito de Milão, no qual proibia-se a perseguição aos cristãos, legalizando o culto do Cristianismo pelos povos do império. Contudo, tanto Lícinio como outros membros da elite romana ainda se mantiveram ligados as antigas tradições e não enxergaram com bons olhos tal lei.

 

De qualquer forma, Constantino passou a ser bem quisto pelos cristãos, porém, isso não terminaria por aí – ele ainda era um homem que possuía outras ambições. Nos anos seguintes Constantino governou conjuntamente com Lícinio até ordenar a morte deste em 324, e finalmente passar a ser regente único. Nesse meio tempo, Lícinio havia se tornado cunhado de Constantino, por ter se casado com uma de suas irmãs. Mesmo assim isso não impediu que ele ordenasse a morte do cunhado. Além deste crime, Constantino também é acusado de ter ordenado a morte de um dos filhos e de uma das esposas, sobre o acusações de traição e conspiração, de toda forma, mesmo com as mãos sujas de sangue, ele se mantivera como um líder importante.

 

Em 325 ocorreu sob a organização e convocação do imperador o Concílio de Niceia, o qual fora o Primeiro Encontro Ecumênico da História. Neste concílio, o imperador reuniu os altos bispos do império a fim de reformular a doutrina cristã.

 

“Esse primeiro Concílio em Niceia foi importante não apenas para a formulação da doutrina cristã católica, mas como o primeiro exemplo de cesaro-papismo. Constantino pretendia que a Igreja Cristã fosse estatal, tendo como chefe o imperador. Em sua gratidão, os cristãos não lhe fizeram objeção”. (RUNCIMAN, 1977, p. 21).

 

No concílio, questões de ordem doutrinária e política foram tratadas. Não me reterei a falar acerca destes devido a extensão do assunto, de qualquer forma alguns dos fatos tratados diziam respeito, a questão do arianismo, o qual punha em debate a essência de Jesus Cristo, se ele fora homem ou Deus; a questão sobre o batismo dos heréticos, a perseguição aos cristãos realizadas pelo imperador Diocleciano que levou ao Cisma do bispo Milécio de Licópolis; perseguição aos prisioneiros de Lícinio; definição da data da Páscoa, estatuto sobre questões administrativas e clericais, etc.

 

DSCN4052

Lago Iznik

Segue-se o Concílio de Constantinopla, em 381 onde se fixa o symbolum, isto é, o Credo de Niceia como a doutrina da Igreja. Estabelecida a doutrina falsa da Trindade, discutida por mais de um século, seguiu-se a discussão acerca da natureza do Filho. A legalização do cristianismo e sua integração na sociedade foram uma época de expansão territorial para além dos limites urbanos, de cisão na unidade política do espaço romano-mediterrânico, prenunciada pela divisão do poder imperial entre duas sedes, a do Ocidente e a do Oriente, e pelo progressivo distanciamento cultural entre os dois hemisférios. Não surpreende que a assunção da Igreja ao estatuto de estrutura temporalmente organizada fosse acompanhada de uma atividade legislativa reguladora, promotora de unidade numa Igreja de crescimento explosivo, mas algo anárquico, dadas as condições difíceis em que o mesmo se pôde proporcionar até à Pax de Constantino, em 313.

 

Alguns fatos como a questão da Páscoa oscilar a cada ano, e preceder um período de quarenta dias desde a quarta-feira de cinzas, a chamada quaresma fora debatida nessa época. 

 

Outro fato, é que posteriormente também fora decidido, fora a data do Natal, já que no Novo Testamento não se menciona a data de nascimento de Jesus Cristo. Constantino decidiu que essa data deveria ser celebrada no dia 25 de dezembro, dia que corresponde ao nascimento do deus Mitra lembrem-se que o mitraísmo era uma religião influente entre o exército romano, e o próprio imperador fora adepto desta. Além disso, a data 25 de dezembro marca entre alguns povos pagãos a comemoração do solstício de inverno, período em que começa-se a celebrar a espera da vinda da primavera e com esta o início das plantações. Assim, tal data não fora escolhida por mero acaso, os próprios romanos comemoravam a Saturnália no mês de dezembro, festas realizadas ao deus Saturno, deus da agricultura, justiça e do tempo. Embora a Saturnália termina-se antes de 25 de dezembro, alguns aspectos dessa celebração embasaram os primeiros ritos natalinos daquele tempo.

 

 

Referências Bibliográficas:

LEMOS, Marcia Santos. O Episcopado Cristão no Império Romano do Século IV: práticas cotidianas e a ação política. Doutoranda em História, UFF.

MENDES, Norma Musca (Organizadora), Repensando o Império Romano: perspectivas socioecônomica, politica e cultural. Rio de Janeiro, Mauad, 2006. BALDSON, J. P. V. D. O Mundo Romano. Rio de Janeiro, Zahar, 1968. GRIMAL, Pierre. A Civilização Romana. Lisboa, Ed. 70, 1988. RUNCIMAN, Steven. A Civilização Bizantina. 2a edição. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1977.